Toda noite, eu ouvia Muriel dizer que era melhor abandonar as experiências traumáticas para conseguir refazer-se. Eu nunca enxergava com quem ela conversava e ficava tentando através do buraquinho da fechadura avistar e reconhecer aquela figura quieta e danificada (mancava sempre; ora com uma perna, ora com outra). Eu achava que era uma mulher.
Um dia, decidi me esconder do lado de fora da casa para espionar pela janela. Era perigoso, porque a figura misteriosa só vinha de noite e eu não gostava de sair de casa, mas estava decidida a conhecer de uma vez por todas o rosto daquela mulher.
Já bem tarde, ela chegou. Usava um sobretudo até os pés e tinha um capuz na cabeça. Tudo preto. Luvas e sapatos também pretos. Seu perfume era encantador. Eu sempre dormia com aquela fragância de veludo em meu rosto; eram flores do campo, com certeza.
Foi de relance que quase vi seu rosto. Um arrepio percorreu todo o meu corpo e senti minhas mãos e pés suarem frio. Meu coração acelerou e tive impressão de que não agüentaria ficar sozinho ali fora de tanto nervoso, mas agüentei até o fim.
Seus dedos passavam nervosamente pela testa, numa expressão de angústia e dor, e tive a impressão de que iria tirar o capuz; mas pegou um lenço no bolso - um lenço branco - e enxugou o suor do rosto e das mãos, depois começou a chorar compulsivamente, até que Muriel lhe abraçou e disse que era melhor abandonar as experiências traumáticas para conseguir refazer-se. Meu Deus, toda noite Muriel dizia isso. O que significavam essas palavras? Que experiências traumáticas seriam essas? Quem era essa mulher?
Permaneceram as próximas duas horas em total silêncio, até que a mulher levantou-se, e com um aceno de cabeça despediu-se de Muriel. Nessa noite, ela mancava com a perna direita.
Nesse dia, não consegui mais voltar para dentro.
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